A escola do futuro será personalizada, graças à inteligência artificial

Síntese da Challenges 2019, por Ana Francisca Monteiro, amonteiro@ie.uminho.pt

Inteligência artificial na educação. Em que consiste? Como usá-la a nosso favor? O que mudará ou irá permanecer? Cerca de 200 pessoas reuniram-se no Instituto de Educação da Universidade do Minho, na Challenges 2019 – XI Conferência Internacional de TIC na Educação, para debater estes desafios.

Imagine uma escola em que o professor dispõe de vários assistentes que, além de despacharem as papeladas, estão atentos e preparam formas de apoiar as apetências e dificuldades particulares de cada aluno. Parece difícil? A julgar pelo debate que, entre os dias 13 e 15 de maio, juntou cerca de 200 pessoas no Instituto de Educação da Universidade do Minho (IE-UMinho), está mais próximo do que se possa pensar. Com a inteligência artificial (IA) como grande aliado, a escola do futuro será uma experiência personalizável, adaptada às singularidades de cada um, em que o professor é quem dirige e garante que a orquestra está sintonizada.

No seu 20º aniversário, a Challenges 2019 – Conferência Internacional de TIC na Educação, organizada a cada dois anos pelo Centro de Competência em TIC (CCTIC) da UMinho, fez jus ao seu nome, pela décima primeira vez. Os desafios que as mais recentes inovações tecnológicas representam para a educação estiveram em discussão, entre investigadores, professores, programadores, engenheiros, técnicos e jornalistas. Com um pé no futuro, levantaram-se muitas questões, como em qualquer boa investigação. Mas não se esqueceram as respostas. Até porque a IA não vai ser. Já é, no presente, como frisaram vários palestrantes, referindo-se, por exemplo, a sistemas tutores inteligentes e assistentes pessoais de aprendizagem. Mas também já foi. Ouviu-se aqui que estamos na primavera deste fenómeno. E pode dizer-se que estes três dias de debate foram como aquelas idas ao ginásio com que queremos preparar-nos para um bom verão (porque, ao contrário do que acontece na música dos Deolinda, não queremos que seja uma desilusão). 

Quais foram então os exercícios com que se treinou? Falou-se, claro está, de tecnologias, mas também de teorias, práticas, pedagogias e dificuldades. Conceitos novos como educação baseada em dados, learning ou academic analytics e o que nos mostram as mais recentes descobertas da neurociência estiveram em cima da mesa. E sonhou-se, também. Imaginou-se uma escola ao contrário, em que o que é aborrecido é pouco e o que é divertido e entusiasmante é muito ou é, pelo menos, mais. Para os alunos e para os professores. Com os seus assistentes, o professor terá oportunidade de se centrar no fundamental, isto é, na pedagogia e nos processos de aprendizagem. Já para os alunos, antecipam-se tutores virtuais capazes não só de identificar os talentos e dificuldades de cada um, mas também de preparar exercícios ou abordagens personalizadas. Será uma educação em que a informação certa chega ao aluno no momento certo, prevê Scott Bolland.

Mas e se, em determinado momento, o aluno ou o professor não quiserem que seja um programa a decidir, por exemplo, qual o seu estilo de aprendizagem? Ou que se saiba o seu estado de espírito? E se quiserem ser eles próprios a tomar estas decisões? Como saber o que o programa decide pelo aluno ou pelo professor? Os riscos também foram para aqui chamados. A IA é tanto melhor quanto mais invisível, concordaram os investigadores e engenheiros que trabalham no desenvolvimento da tecnologia. Mas são algoritmos e algoritmos são opções. Onde ficam as esferas de decisão, questiona António Osório, professor no IE-UMinho. Para dar respostas a estes desafios e usar bem estes avanços científicos e tecnológicos, é preciso criar redes interdisciplinares que trabalhem em colaboração, refere o responsável pela organização do evento. No final, ficou a segurança de que as máquinas nunca serão humanas e caberá sempre ao ser humano assegurar que a IA faz o que deve e não o contrário.

Por este evento passaram, oriundos de instituições internacionais, Benedict Du Boullay, da International Society for Artificial Intelligence in Education, no Reino Unido, Scott Bolland, investigador e empreendedor australiano, pioneiro no desenvolvimento de tecnologias de IA aplicada à educação, Marina Bers, investigadora em robótica e programação na infância, da Tufts University, Estados Unidos da América e Matthew Montebello, investigador da Universidade de Malta. A nível nacional, o congresso contou com os contributos de Dulce Mota, do Instituto Superior de Engenharia do Porto, Dalila Durães, da Universidade do Minho, Sérgio Ferreira, da Escola Básica e Secundária das Flores, nos Açores, Isabel Alexandre, do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa e Hélder Coelho, do Conselho Consultivo do Colégio Doutoral Mente-Cérebro da Universidade de Lisboa. O evento encerrou com uma mostra de práticas de integração das tecnologias em escolas portuguesas.

A terminar, vale mesmo a pena referir que a Challenges 2019 não se ficou pelas palavras, arriscou passar aos atos. A conferência foi ela própria uma prática pedagógica. O evento abriu com uma apresentação de ginástica artística realizada por alunos da Escola Secundária Alberto Sampaio (ESAS), de Braga. O secretariado esteve a cargo de alunos do curso profissional de secretariado da mesma escola. Algures pelo meio houve tempo para uma performance teatral dos alunos do curso de teatro, ainda da ESAS, com uma encenação do poema ‘Semântica Electrónica’, de Vitorino Nemésio. O registo multimédia foi feito por estudantes do curso profissional de multimédia do Externato Infante D. Henrique, também em Braga.

Ben du Boulay na Challenges 2019
AI as an effective classroom assistant (tradução livre: A Inteligência Artificial como assistente eficaz na sala de aula), mote da intervenção do Professor Ben du Boulay na Challenges 2019. (Foto: M. Vilaça)